
Análises laboratoriais com morcegos integram a pesquisa que investiga os impactos genéticos da exposição à fumaça de queimadas, com foco na qualidade do ar e na saúde ambiental (Fotos: Arquivo Pessoal)
Os impactos das queimadas na qualidade do ar e na saúde ambiental estão sendo investigados por um projeto de pesquisa com participação da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), que reúne estudos em regiões do Pantanal e da Amazônia, com atividades em andamento no Bico do Papagaio, no norte do estado.
Intitulada “Métodos Integrados de Avaliação do Impacto das Queimadas na Qualidade do Ar, Biota Animal e Modelos in vitro no Pantanal e Amazônia”, a pesquisa busca avaliar os efeitos da poluição causada pelo material particulado fino (MP2,5), com foco em possíveis danos genéticos em animais e em células humanas. O estudo pretende contribuir para a formulação de políticas públicas voltadas à mitigação de impactos ambientais e à proteção da saúde da população.
Nos últimos anos, o aumento na frequência e na intensidade das queimadas tem elevado a emissão de poluentes na atmosfera, ampliando os riscos tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana. Nesse contexto, o projeto busca ampliar o conhecimento científico sobre esses impactos, especialmente em áreas de alta relevância ecológica, como a Amazônia e o Pantanal.
Monitoramento com animais silvestres
Uma das etapas da pesquisa envolve a captura e análise de morcegos, considerados importantes bioindicadores ambientais devido à sua sensibilidade a alterações no ambiente.

Morcegos são utilizados como bioindicadores ambientais
Segundo o pesquisador William Douglas de Carvalho, vinculado à Universidade Autônoma de Madrid e à Universidade Federal do Amapá, esses animais permitem identificar mudanças ambientais com maior precisão. “Os morcegos conseguem revelar muita coisa, pois são sensíveis a alterações no ambiente. Em áreas com desmatamento ou urbanização, algumas espécies são mais afetadas. No caso dos incêndios, eles podem indicar como a fumaça impacta a saúde desses animais”, explicou.
A coleta na região do Bico do Papagaio apresenta desafios específicos. “A vegetação local é diferente, com maior presença de palmeiras, o que exige adaptação nas estratégias de captura. Até o momento, já registramos cerca de 25 espécies, e aproximadamente 200 indivíduos foram analisados”, acrescentou o pesquisador.
Atuação da Unitins e cooperação internacional
A Unitins participa ativamente do projeto por meio de atividades de campo e análises laboratoriais realizadas no Câmpus de Augustinópolis. A pesquisa integra, ainda, uma rede internacional com instituições da Espanha, Suécia e Portugal, além de universidades brasileiras.
De acordo com o professor e pesquisador da Unitins, Bruno do Amaral Crispim, a iniciativa fortalece a internacionalização da universidade e amplia o alcance científico do estudo. “O projeto envolve pesquisadores de diferentes países e instituições brasileiras, o que possibilita uma troca de conhecimento relevante e o desenvolvimento de metodologias mais avançadas”, afirmou.
Ele destaca que os dados coletados também poderão subsidiar a tomada de decisões públicas. “A partir das informações obtidas, a proposta é utilizar inteligência artificial para gerar indicadores sobre os impactos das queimadas na qualidade de vida da população e na saúde dos animais, contribuindo para a adoção de medidas mais eficazes”, explicou.
Análises laboratoriais e saúde ambiental
No laboratório, os pesquisadores realizam diferentes análises para identificar possíveis danos causados pela exposição à fumaça, incluindo a coleta de pêlos, sangue e células da mucosa bucal dos animais.
A pesquisadora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Hélina dos Santos Nascimento, detalha o processo. “Analisamos a presença de contaminantes, como hidrocarbonetos policíclicos aromáticos e metais, além de verificar alterações celulares, o que permite avaliar possíveis danos ao DNA”, relatou.
A pesquisa também inclui estudos com células humanas em laboratório, com o objetivo de compreender os efeitos do material particulado no organismo.
Em um segundo momento, os estudos serão realizados com células humanas em laboratório, com o objetivo de compreender os efeitos do material particulado no organismo.
Com integração das análises ambientais, biológicas e tecnológicas, o projeto produz dados que ajudam a entender os efeitos das queimadas e podem subsidiar ações de monitoramento, prevenção e controle da poluição, com impactos na saúde pública e na preservação ambiental.