Estudantes de Serviço Social participam de palestra com especialista em Quilombos

A atividade faz parte da disciplina “Política social: questão agrária e Serviço Social”

Carlos de Bayma PALESTRA 29/11/2022 18:11

Estudantes de Serviço Social juntamente com o professor e professora Ana Lúcia no encerramento da palestra (Foto: Arquivo Pessoal)


Estudantes do 7º período de Serviço Social do Câmpus Palmas da Universidade Estadual do Tocantins (Unitins) assistiram, na última quarta-feira, 23, uma palestra sobre a comunidade Mumbuca, fruto da tese de doutorado em Sociologia da professora doutora Ana Lúcia Pereira, com o tema “Famílias quilombolas: história, resistência e luta contra a vulnerabilidade social, insegurança alimentar e nutricional na Comunidade Mumbuca, Estado do Tocantins”. A atividade faz parte da disciplina “Política social: questão agrária e Serviço Social”, ministrada pelo professor doutor Mauri Antônio da Silva.

 

Ana Lúcia é graduada em Ciências Sociais, mestra em História e doutora em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp). Atualmente é docente da Universidade Federal do Tocantins (UFT) no curso de Direito onde leciona as disciplinas de Sociologia Geral, Metodologia Cientifica e História do Direito, dedicando-se aos estudos da população negra com ênfase nos temas ligados a educação e promoção da igualdade racial.

 

Ana Lúcia explica que “a opção pelo estudo da Comunidade Mumbuca se deu porque é uma comunidade que está envolvida em uma teia de relações que permite contextualizar a vulnerabilidade social e a insegurança alimentar e nutricional em âmbito local, estadual, regional e federal. Daí se apresenta três temas pertinentes: defesa do território, construção da identidade étnica e garantia da soberania alimentar”.

 

Para o professor doutor Mauri Antônio da Silva, “os quilombos foram formas de resistência do povo negro ao processo de escravização que era uma verdadeira afronta aos direitos humanos de milhões de negros que foram utilizados nas monoculturas de pau-brasil, ouro e café durante o período colonial e imperial. A palestra foi uma forma de registrar o dia 20 de novembro que é o Dia Nacional da Consciência Negra resgatando as raízes do povo afro-brasileiro. No dia 20 de novembro de 1695, morreu Zumbi dos Palmares, líder da resistência negra e da luta pela liberdade. É preciso fortalecer as comunidades quilombolas por meio de políticas públicas de saneamento, água, educação, alimentação e fomento à geração de renda, incluindo os pobres no orçamento federal, estadual e municipal”.

 

A acadêmica Jozilene Souza explica que "não conhecia sobre essa comunidade. Quando a professora nos apresentou o contexto histórico, de luta e resistência dessa comunidade contra a vulnerabilidade social, contra a insegurança alimentar e nutricional, eu fiquei extremamente impactada, pois ainda existe essa realidade, principalmente junto às comunidades quilombolas. Achei muito importante a palestra, e no final ainda fui agraciada com um exemplar dessa obra".

 

Mumbuca

Mumbuca refere-se ao nome de uma abelha, pois foi assim que os moradores de Mumbuca começaram a contar a história do povoado durante as entrevistas da pesquisadora para escrever a tese. Segundo Ana Lúcia, “somente ouvindo as histórias e as cantigas que são cantadas por todos os moradores e frequentemente acompanhadas pelo som da viola de vereda, é possível tomar contato com o universo do Povoado Mumbuca. As letras das músicas expressam a cultura local, aspectos naturais do Jalapão e a história do povoado que já existe há mais de um século, praticando uma economia de agricultura, criação de animais e extrativismo”.

 

Pelas narrativas orais que são passadas de geração a geração descobriu-se que uma das famílias de origem chegou ao local fugindo da seca, da fome e da escravidão na Bahia, há mais de um século. Segundo estudos da árvore genealógica, as famílias ancestrais eram compostas de negros e indígenas, mas Ana Lúcia Pereira relata que o quilombo hoje é um grupo misto composto por pessoas negras, mestiças e algumas brancas. A formação da comunidade se deu pela união das famílias Beato, Bento e Pereira. Dentro da comunidade, a pessoa mais velha é dona Laurentina Matos, 104 anos, tratada pelos moradores como Vó Laurentina, Vó Lôra ou Vó Grossa.

 

A comunidade quilombola Mumbuca está inteiramente situada no município de Mateiros (TO), na divisa com Piauí, na qual se encontra a maior região ecoturística do Jalapão. A comunidade teve sua regularização fundiária formalizada no Incra/TO, possuindo a Certidão de Auto-reconhecimento emitida pela Fundação Cultural Palmares, desde 16 de janeiro de 2006, mas o território ainda não foi reconhecido e nem titulado.

 

Insegurança alimentar

Os principais fatores que causam insegurança alimentar na comunidade são as condições físicas, geográficas e naturais do meio que afetam a produção e distribuição dos alimentos. A dieta alimentar básica é composta de farinha, arroz e feijão. Na ocasião da realização da pesquisa (2010), 42,5% dos domicílios conviviam com quantidade insuficiente de alimentos e a qualidade inadequada à sua cultura.

 

De acordo com Ana Lúcia Pereira, a vulnerabilidade social e a insegurança alimentar e nutricional das comunidades quilombolas em geral e da Comunidade Mumbuca, em particular, deve-se ao não respeito às diferenças, combinado com a privação de liberdades expressa na ausência do Estado no que tange à prestação de serviços essenciais, como saúde, educação, transporte e infraestrutura.

 

A obra

A obra “Famílias quilombolas: história, resistência e luta contra a vulnerabilidade social, insegurança alimentar e nutricional na Comunidade Mumbuca, Estado do Tocantins” está disponível na Livraria Leitura, em Palmas. A versão em e-book está disponível na Amazon, Apple e Google.

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