Este trabalho propõe uma análise interdisciplinar entre a teoria política de Thomas Hobbes e a antropologia mimética de René Girard, com foco na compreensão da violência como elemento fundacional da ordem social. Partindo da noção hobbesiana de “estado de natureza” como uma condição de guerra generalizada, motivada por paixões e desejo de poder, o estudo aproxima essa concepção da teoria girardiana do desejo mimético, segundo a qual os indivíduos imitam os desejos alheios, gerando rivalidade e conflitos. Ambas as abordagens reconhecem que a violência é estrutural e exige mecanismos de contenção para evitar a destruição da coletividade. Nesse sentido, o Leviatã hobbesiano e o mecanismo do bode expiatório girardiano são compreendidos como dispositivos que canalizam a reciprocidade destrutiva e restauram a ordem, seja por meio do contrato social e do monopólio da força, seja por meio do sacrifício ritual e da unanimidade persecutória. A análise evidencia que a paz não surge espontaneamente, mas é resultado de um ato inaugural de violência reorganizada.